SOFRENÇA
A palavra "sofrença"(Ç) já existiu na ortografia portuguesa e ainda é falada no Nordeste brasileiro. Significava "sofrimento; padecimento", principalmente "sofrer por tolerância ou resistência à paixão". Mas o termo entrou em
evidência no Brasil devido ao gênero musical conhecido como “arrocha”. Nele, em letras e títulos, a
palavra foi equivocadamente escrita como “sofrência” em uma música, porque lá no Nordeste brasileiro a palavra ainda é conhecida, mesmo sendo extinta do VOLP. Descobriram
que o termo não existe nos Dicionários. Logo a palavra entrou em evidência na
mídia e muitos etimologistas justificaram como sendo um neologismo de
“sofrimento” e “carência”, que, sem pesquisar, não perceberam que a palavra
“sofrença” já existiu na língua portuguesa e mesmo que o termo tenha desaparecido na nova ortografia,
continuava sendo falada (século XXI) na mesma região em que o grupo
musical surgiu, e onde é comum se atribuir “sofrença” a quem sofre por paixão
ou um "sofrimento leve e prolongado". Claro que na pronúncia, a terminação
“-ença” e “-ência” têm diferença imperceptível, pela tradição falada.
O gênero
musical mistura o ritmo sertanejo, o ritmo arrocha e o estilo brega. As canções
desse gênero falam sobre decepção amorosa, ciúme exagerado e amor não
correspondido (era o significado tradicional de “sofrença”). Quiçá a ideia de
neologismo foi uma saída para explicar o registro do “erro” na letra da música.
Tendo que ressuscitar um conceito antigo, a forma culta seria como ela constava
antes.
O Diccionario da Lingua
Portugueza, 1813, de Antônio de Morais Silva, e o Dicionário “Thesouro
da Lingua Portugueza”, 1871, do Frei Domingos Vieira, já registravam o verbete como
sendo um substantivo feminino antiquado. E define “sofrimento” como “ato ou
efeito de sofrer. Padecimento. Dor. Amargura. Paciência. Desastre.”. No
Dicionário da Língua Portuguesa de 1913, de Antônio Cândido de Figueiredo, traz
o verbete como “forma antiquada. O mesmo que sofrimento.”. E “sofrimento”
definido como “tolerância, paciência, aos abusos, aos crimes, e até na
religião” (talvez, referência à Inquisição).
Mas O Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa, de 2001, não registra o termo, mas faz duas referências a “sofrença”
como etimologia da palavra “sofrimento”. Uma delas, como exemplo no verbete
“sofr-“; outra, na etimologia da palavra “sofrimento”, que remete a 1450.
Portanto, o termo “sofrença” já existiu na língua portuguesa; e “sofrencia”, terminada em "cia", nunca existiu. A palavra "sofrença" foi substituída por “sofrimento” em razão das mudanças
ortográficas na língua portuguesa.
O filólogo e dicionarista Antônio Houaiss explica que o sufixo “-ença”
permaneceu para algumas regras e é formador de substantivos abstratos oriundos
de verbos outros da 1ª conjugação; ocorreu o desenvolvimento da forma culta
paralela “-ência”, gerando por vezes divergentes (como as terminações de
“pertença”: “pertinência”): atença, avença, benquerença, conhecença,
convalescença, crença, crescença, desavença, descrença, detença, diferença,
doença, fervença, malquerença, nascença, parecença, reconhecença, renascença,
sabença, tença, valença. O sufixo “-ência” permanece com a regra para sufixo
formador de substantivos abstratos oriundos de verbos outros que da 1ª
conjugação; como no caso de “-ância” e “-ança”, este é a forma culta paralela
de “-ença”, que, a partir do Renascimento, se difunde de tal arte que de certo
modo estanca a fecundidade de “-ença”: abnuência, abrangência, absorvência,
abstergência, abstinência, acedência, acrescência, aderência etc.; numa relação
de 455 palavras com esse “-ência” (já em explícita relação com verbos da língua
portuguesa, já em relação à forma latina em que essa relação está obliterada,
caso, por exemplo, de excelência, magnificência, reverência), há sempre esse
sufixo. Em suma, com a mudança ortográfica, algumas palavras mudaram a forma de
sufixação. Um dos exemplos é “sofrença” para “sofrimento” - com a mesma acepção
no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), em 2001.

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