O A D I C T O
21/04/2015
Edvaldo Martins de Carvalho
(Valto Martins)
Quem na vida já viveuDe algo foi dependenteSabe como é difícilTudo é dificilmenteSe for drogas e afinsMas a coisa fica ruimQuando é da nossa gente
Falo aqui dum doenteQue perdeu sua noçãoQue conversa com as placasE namora com orelhãoSeu amigo imaginárioÉ companheiro diárioCom quem tem sua afeição
E por falta de amparoComeça a cheirar colaE por falta de noçãoFoge logo da escolaSeu lar não lhe interessaA vida não tem pressaSe ele vive de esmola
Leva coisa na sacolaQue ninguém vai perceberFaz coisas na vidaPra família não saberCompra e vende escondidoFaz papel de bandidoPra no vicio se manter
No mundo não se aceitaTratar o chamado "noia"(1)A polícia tá de espreitaAté o governo apoiaA sociedade o rejeitaO traficante lhe aceita"Legalize"(2) é uma pinoia!
1 - Noia: dependente químico; usuário de drogas. Vem da redução de paranoia – delírio, loucura.2 - Legalize-já: lema do movimento de legalização da maconha, difundida por pichações e músicas, pois é promovido pelos verdadeiros traficantes, que não pode aparecer.
Quem diz que droga é joiaDependente dela éInvés de esposa em casaTem a puta em cabaréNa companhia do malCome cru e sem salSem alimento da fé
Ele queima o banzé(3)Cheira o maldito póInjetando "herói" na veiaUm mondongo(4) que dá dóAssim traduz um adicto(5)Que depende do “maldito”Até soltar-se do nó.
3 - Banzé: fumo picado, pronto para enrolar o cigarro. Neste caso, a erva da maconha.4 - Mondongo: pessoa suja; origem: resto das tripas de animal ao limpar, na manufaturamento (a mão) de linguiça;5 - Adicto: afeiçoado; inclinado; dependente. Nos Narcóticos ou Alcoólicos Anônimos, "um adicto é simplesmente um homem ou uma mulher cuja vida é controlada pelas drogas".
"É ruim por si sóQualquer forma de vício"Dizia Santo Agostinho,Um filósofo patrísticoPra seguir a nova trilhaPeça ajuda a famíliaNão importa o sacrifício
Largado num hospícioOu em psiquiatriaÉ o destino de quemUm bandouba(6) pareciaVivendo um maltrapilhoOu até como andarilhoPor culpa do que fazia
6 - Bandouba: restos de intestinos (tripas); indivíduo imundo.
Muitos deles jaziaNa cova de seu destinoOutros sujam seu nomePendurado em fio finoVendendo o que já devePraticando o que descreve"Arrebate de inopino"(7)
7 - ''Arrebatamento de inopino" é o furto rápido, como fazem os "batedores de carteira". O termo era usado pela polícia até meado de 1980. Depois apelidado de "punguista".
Vejam só lá um meninoQue drogas não aguentaCheirando um esmalteDa mãe que o afugentaJogado à própria sorteDeixando, vai à morteSe a fome o sustenta
Do adulto então lamentaPorque ele nega pão,Mas aparece alguémE lhe estende a mãoInvés de dar guaridaOu oferecer comidaLhe arrastam pra prisão
Logo vem a soluçãoPra tão difícil dilemaAs famigeradas ONGs(8)Montando estratagemaOferece um "charuto"Alegam evitar furtos,Mas faz parte do esquema
8 - "Organizações Não Governamentais". Grande parte delas têm cunho político, envolvendo em corrupção (lavagem de dinheiro). A maior gravidade é quando os grupos criminosos lavam seu dinheiros sujos abrindo ONGs que insistem em defender seus crimes, e para isso enfraquecem a fiscalização e a repressão.
Como pode um problemaSer resolvido assimPor alguém envolvidoDo princípio ao fimO dependente sustentaA corrupção nojentaDe um sistema ruim
Se um político é afimDa tal "legalização"Ele está é envolvidoCom a "traficação"(9)O adicto é compradoEstá ele dominadoPelos grupos de ação
9 - Gíria para "traficância" - colaboração com a rima, por licença poética.
Governantes farãoAs providências cabíveisDa repressão ao tráficoPor todos seus níveisMas dum jeito morosoEles são oprobriosoE criminosos passíveis
Como será possívelA legal internaçãoUma clínica o apóiaSe houver aceitaçãoPra tratar da tal doençaDeve dele a anuênciaSenão vira uma prisão
Depois de já tratadoCom corpo e mente sãSe não tratar a famíliaA volta à casa é vãSó terá vida sadiaSe tratar a trilogia:Adicto, família e o "clã"(10)
10 - grupo em que um individuo faz parte numa sociedade.
Digas-me, amigo grãCom quem tu andarásLhes direi quem tu ésTambém o que farásSão palavras de JesusAceitas quem te conduzE direi-lhe quem serás
Dos Idos dos zagaisHá um dito tão beloQuem anda com porcoSó come o fareloAssim é um adictoEle se encaixa no ditoSe não corta seu elo
A justiça do marteloCondena quem anda juntoPois ele é coautorE responde em conjuntoE se anda em mais de trêsEle também é freguêsIsso agrava o assunto
Resta ao dependenteLimpar-se por completoNome, corpo e almaE de paz estar repletoCom pensamento tranquiloGuardar tudo em sigiloPois não era o correto.
Vá pensando no assuntoA volta pra cidadeLá é muito diferenteTem isca pra toda genteO anzol é de verdade
Mas... da sociedadeA espera é muito tristeReza e desapegaTerás quem lhe assiste?Invista em sua vidaNão entre em recaídaSem essa! Não desiste(11)
11 - O tempo correto do verbo é o imperativo "desista!". A forma no infinitivo "desiste!" já é falada no Brasil e foi utilizado assim por licença poética, em detrimento da rima.
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