quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O Adicto


O   A D I C T O
21/04/2015

Edvaldo Martins de Carvalho
 (Valto Martins)

Quem na vida já viveu
De algo foi dependente
Sabe como é difícil
Tudo é dificilmente
Se for drogas e afins
Mas a coisa fica ruim
Quando é da nossa gente

Falo aqui dum doente
Que perdeu sua noção
Que conversa com as placas
E namora com orelhão
Seu amigo imaginário
É companheiro diário
Com quem tem sua afeição

E por falta de amparo
Começa a cheirar cola
E por falta de noção
Foge logo da escola
Seu lar não lhe interessa
A vida não tem pressa
Se ele vive de esmola

Leva coisa na sacola
Que ninguém vai perceber
Faz coisas na vida 
Pra família não saber
Compra e vende escondido
Faz papel de bandido
Pra no vicio se manter

No mundo não se aceita
Tratar o chamado "noia"(1)
A polícia tá de espreita
Até o governo apoia
A sociedade o rejeita
O traficante lhe aceita
"Legalize"(2) é uma pinoia!
1 - Noia: dependente químico; usuário de drogas. Vem da redução de paranoia – delírio, loucura.
2 - Legalize-já: lema do movimento de legalização da maconha, difundida por pichações e músicas, pois é promovido pelos verdadeiros traficantes, que não pode aparecer.

Quem diz que droga é joia
Dependente dela é
Invés de esposa em casa
Tem a puta em cabaré
Na companhia do mal
Come cru e sem sal
Sem alimento da fé
 
Ele queima o banzé(3)
Cheira o maldito pó
Injetando "herói" na veia
Um mondongo(4) que dá dó
Assim traduz um adicto(5)
Que depende do “maldito”
Até soltar-se do nó.

3 - Banzé: fumo picado, pronto para enrolar o cigarro. Neste caso, a erva da maconha.
4 - Mondongo: pessoa suja; origem: resto das tripas de animal ao limpar, na manufaturamento (a mão) de linguiça; 
5 - Adicto: afeiçoado; inclinado; dependente. Nos Narcóticos ou Alcoólicos Anônimos, "um adicto é simplesmente um homem ou uma mulher cuja vida é controlada pelas drogas".

"É ruim por si só
Qualquer forma de vício"
Dizia Santo Agostinho,
Um filósofo patrístico
Pra seguir a nova trilha
Peça ajuda a família
Não importa o sacrifício

Largado num hospício
Ou em psiquiatria
É o destino de quem
Um bandouba(6) parecia
Vivendo um maltrapilho
Ou até como andarilho
Por culpa do que fazia

6 - Bandouba: restos de intestinos (tripas); indivíduo imundo.

Muitos deles jazia
Na cova de seu destino
Outros sujam seu nome
Pendurado em fio fino
Vendendo o que já deve
Praticando o que descreve
"Arrebate de inopino"(7)
7 -  ''Arrebatamento de inopino" é o furto rápido, como fazem os "batedores de carteira". O termo era usado pela polícia até meado de 1980. Depois apelidado de "punguista".

Vejam só lá um menino
Que drogas não aguenta
Cheirando um esmalte
Da mãe que o afugenta
Jogado à própria sorte
Deixando, vai à morte
Se a fome o sustenta

Do adulto então lamenta
Porque ele nega pão,
Mas aparece alguém
E lhe estende a mão
Invés de dar guarida
Ou oferecer comida
Lhe arrastam pra prisão
 
Logo vem a solução
Pra tão difícil dilema
As famigeradas ONGs(8)
Montando estratagema
Oferece um "charuto"
Alegam evitar furtos,
Mas faz parte do esquema
 8 - "Organizações Não Governamentais". Grande parte delas têm cunho político, envolvendo em corrupção (lavagem de dinheiro). A maior gravidade é quando os grupos criminosos lavam seu dinheiros sujos abrindo ONGs que insistem em defender seus crimes, e para isso enfraquecem a fiscalização e a repressão.

Como pode um problema
Ser resolvido assim
Por alguém envolvido
Do princípio ao fim
O dependente sustenta
A corrupção nojenta
De um sistema ruim
 
Se um político é afim
Da tal "legalização"
Ele está é envolvido
Com a "traficação"(9)
O adicto é comprado
Está ele dominado
Pelos grupos de ação
9 - Gíria para "traficância" - colaboração com a rima, por licença poética.

Governantes farão
As providências cabíveis
Da repressão ao tráfico
Por todos seus níveis
Mas dum jeito moroso
Eles são oprobrioso
E criminosos passíveis

Como será possível
A legal internação
Uma clínica o apóia
Se houver aceitação
Pra tratar da tal doença
Deve dele a anuência
Senão vira uma prisão

Depois de já tratado
Com corpo e mente sã
Se não tratar a família
A volta à casa é vã
Só terá vida sadia
Se tratar a trilogia:
Adicto, família e o "clã"(10)
 10 - grupo em que um individuo faz parte numa sociedade.

Digas-me, amigo grã
Com quem tu andarás
Lhes direi quem tu és
Também o que farás
São palavras de Jesus
Aceitas quem te conduz
E direi-lhe quem serás

Dos Idos dos zagais
Há um dito tão belo
Quem anda com porco
Só come o farelo
Assim é um adicto
Ele se encaixa no dito
Se não corta seu elo

A justiça do martelo
Condena quem anda junto
Pois ele é coautor
E responde em conjunto
E se anda em mais de três
Ele também é freguês
Isso agrava o assunto

Resta ao dependente
Limpar-se por completo
Nome, corpo e alma
E de paz estar repleto
Com pensamento tranquilo
Guardar tudo em sigilo
Pois não era o correto.

Vá pensando no assunto
A volta pra cidade
Lá é muito diferente
Tem isca pra toda gente
O anzol é de verdade

Mas... da sociedade
A espera é muito triste
Reza e desapega
Terás quem lhe assiste?
Invista em sua vida
Não entre em recaída
Sem essa! Não desiste(11)

11 - O tempo correto do verbo é o imperativo "desista!". A forma no infinitivo "desiste!" já é falada no Brasil e foi utilizado assim por licença poética, em detrimento da rima.



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