sábado, 12 de novembro de 2022

CALMA AÍ... QUE CALMA É ESSA?

 CALMA: Até o final século XX, no nordeste brasileiro ainda se ouvia os mais idosos dizerem: “Hoje tá uma calma...”; “Que calma é essa!?”. Mas a palavra “calma” já perdeu essa acepção de calor, de quentura, de alta temperatura. Atualmente, “calma” define “ausência de agitação; tranqüilidade; serenidade”. O espanhol e italiano têm ‘calma’, o francês ‘calme’, o inglês ‘calms’, o holandês ‘kal’. Apesar disso a origem da palavra é incerta. A conjectura mais plausível é a que deriva a palavra do baixo latim ‘cauma’ (“calor”), pois “calma” significa em português e espanhol o calor do dia. Houve mudança do “u” em “l”, conquanto não frequente, não é extraordinária. Quem, no atual século XXI, ler a estrofe de “Os Lusíadas” a seguir corre o risco de não entender: “Por fogo, ferro, água, calma e frio” o autor quis se referir a água “tranquila e fria”: “Não cometera o moço miserando / O carro alto do pai, nem o ar vazio / O grande arquiteto com filho, dando / Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio. / Nenhum cometimento alto e nefando / Por fogo, ferro, água, calma e frio, / Deixa intentado a humana geração. / Mísera sorte! Estranha condição!” (CAMÕES, Os Lusíadas, cântico IV, estrofe 104). O teólogo, gramático, lexicógrafo português Frei Domingos cita como exemplo para o verbete “sinal”, uma expressão antiga: "Grande calma, é signal de agua". Ela fala do calor que antecede as chuvas - Frei Domingos Vieira (1775-1857) - Grande Dicionário “Thesouro da Lingua Portugueza”, 1871, Porto/Portugal. No sentido figurado “agitação, calor no ânimo”. Há várias locuções com a terminologia de “calma”: “for em calma” (tranqüilidade, quietação do espírito). Esta oposição dos sentidos figurados liga-se imediatamente à diferença, que não é oposição, dos dois sentidos naturais. “Calma borralho” (locução náutica, o mesmo que “calma morta”), ou “calma podre” (ausência completa de movimento do ar; calmaria). “Calma” passou a significar tranquilidade absoluta no mar, cessação completa de vento, de modo que não haja nem a mínima aragem. Parece mesmo que “calma” (calor, quentura) tem origem diferente de “calma” (feminino de calmo - tranquilo). Assim o “ar calmo” é diferente da “calma do ar”; “mar calmo” é diferente da “calma do mar”. Em alguns textos antigos, em especial na poesia, se acham algumas expressões “calma do espírito”, “calma dos ânimos” etc., para se referir aos ânimos ou espírito quente, fervoroso, agitado. Atualmente, “calma do espírito” significa inquietação espiritual; e “calma dos ânimos” significa tranquilidade. Num diálogo na Ecloga, de Virgilio, a personagem Menalca diz a Dameta: “O’moços, recolhei logo as ovelhas: se a calma como há pouco, retiver o leite, por demais apertaremos as tetas com as mãos, quand’ordenharmos.” (Públio Virgílio Marão (70 - 19 a.C.) – Ecloga III, pag. 22, 1761), ou seja: se o calor afetar demais as ovelhas e houver retenção do leite dificulta a ordenha.

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