sábado, 18 de fevereiro de 2017

SOFRENÇA


SOFRENÇA
A palavra "sofrença"(Ç) já existiu na ortografia portuguesa e ainda é falada no Nordeste brasileiro. Significava "sofrimento; padecimento", principalmente "sofrer por tolerância ou resistência à paixão". Mas o termo entrou em evidência no Brasil devido ao gênero musical conhecido como “arrocha”. Nele, em 
letras e títulos, a palavra foi equivocadamente escrita como “sofrência” em uma música, porque lá no Nordeste brasileiro a palavra ainda é conhecida, mesmo sendo extinta do VOLP. Descobriram que o termo não existe nos Dicionários. Logo a palavra entrou em evidência na mídia e muitos etimologistas justificaram como sendo um neologismo de “sofrimento” e “carência”, que, sem pesquisar, não perceberam que a palavra “sofrença” já existiu na língua portuguesa e mesmo que o termo tenha desaparecido na nova ortografia, continuava sendo falada (século XXI) na mesma região em que o grupo musical surgiu, e onde é comum se atribuir “sofrença” a quem sofre por paixão ou um "sofrimento leve e prolongado". Claro que na pronúncia, a terminação “-ença” e “-ência” têm diferença imperceptível, pela tradição falada. 
     O gênero musical mistura o ritmo sertanejo, o ritmo arrocha e o estilo brega. As canções desse gênero falam sobre decepção amorosa, ciúme exagerado e amor não correspondido (era o significado tradicional de “sofrença”). Quiçá a ideia de neologismo foi uma saída para explicar o registro do “erro” na letra da música. Tendo que ressuscitar um conceito antigo, a forma culta seria como ela constava antes.
    O Diccionario da Lingua Portugueza, 1813, de Antônio de Morais Silva, e o Dicionário “Thesouro da Lingua Portugueza”, 1871, do Frei Domingos Vieira, já registravam o verbete como sendo um substantivo feminino antiquado. E define “sofrimento” como “ato ou efeito de sofrer. Padecimento. Dor. Amargura. Paciência. Desastre.”. No Dicionário da Língua Portuguesa de 1913, de Antônio Cândido de Figueiredo, traz o verbete como “forma antiquada. O mesmo que sofrimento.”. E “sofrimento” definido como “tolerância, paciência, aos abusos, aos crimes, e até na religião” (talvez, referência à Inquisição).
   Mas O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2001, não registra o termo, mas faz duas referências a “sofrença” como etimologia da palavra “sofrimento”. Uma delas, como exemplo no verbete “sofr-“; outra, na etimologia da palavra “sofrimento”, que remete a 1450. Portanto, o termo “sofrença” já existiu na língua portuguesa; e “sofrencia”, terminada em "cia", nunca existiu. A palavra "sofrença" foi substituída por “sofrimento” em razão das mudanças ortográficas na língua portuguesa. 
     O filólogo e dicionarista Antônio Houaiss explica que o sufixo “-ença” permaneceu para algumas regras e é formador de substantivos abstratos oriundos de verbos outros da 1ª conjugação; ocorreu o desenvolvimento da forma culta paralela “-ência”, gerando por vezes divergentes (como as terminações de “pertença”: “pertinência”): atença, avença, benquerença, conhecença, convalescença, crença, crescença, desavença, descrença, detença, diferença, doença, fervença, malquerença, nascença, parecença, reconhecença, renascença, sabença, tença, valença. O sufixo “-ência” permanece com a regra para sufixo formador de substantivos abstratos oriundos de verbos outros que da 1ª conjugação; como no caso de “-ância” e “-ança”, este é a forma culta paralela de “-ença”, que, a partir do Renascimento, se difunde de tal arte que de certo modo estanca a fecundidade de “-ença”: abnuência, abrangência, absorvência, abstergência, abstinência, acedência, acrescência, aderência etc.; numa relação de 455 palavras com esse “-ência” (já em explícita relação com verbos da língua portuguesa, já em relação à forma latina em que essa relação está obliterada, caso, por exemplo, de excelência, magnificência, reverência), há sempre esse sufixo. Em suma, com a mudança ortográfica, algumas palavras mudaram a forma de sufixação. Um dos exemplos é “sofrença” para “sofrimento” - com a mesma acepção no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), em 2001.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

À FOLOTE

Se diz “à folote”, e às vezes pronunciado "à folota", quando se tem em abundância. “Folote” é adjetivo de dois gêneros. Vem do latim ‘follis’ (“fole”, de soprar, mais o sufixo “-ote”). O termo era mais usado no Brasil nos estados de Pernambuco, Alagoas, Piauí. “Folote” é frouxo (diz-se de comportamento), lasso, muito largo (diz-se geralmente, de roupa), a gosto, confortável, à vontade, em abundância (diz-se de coisas e objetos).